Vida Ribeirinha

Em 2014 tive a grata oportunidade de ir à Manaus. Foi uma viagem a negócios, mas tive chance de ir conhecer uma das muitas comunidades ribeirinhas que vivem às margens das várzeas, entre os rios negro e Solimões, bem pertinho de Manaus. Como viajante fiquei extasiado, como fotografo, enaltecido, já como ser humano, foi um redemoinho de conjecturas, percepções e emoções e eventualmente, vergonha.

O êxtase foi pela oportunidade de conhecer algo que, no máximo, tinha visto superficialmente pela tv. Enaltecido pela oportunidade de ir registrar, de ver de perto e poder fotografar esse modo de vida tão particular dessas pessoas. Já as conjecturas levam a muitas emoções que se misturam com a vergonha. É impossível não nos sentirmos arrogantes, não nos sentirmos fracos, não nos sentirmos responsáveis, mas, principalmente, não nos sentirmos pobres. Muitas vezes me perguntei se ali, para aquela comunidade, essa palavra teria algum significado, ou se era apenas um debate semântico nosso, de uma sociedade monetarista.

Voltei querendo saber um pouco mais e com a clara noção de que, todo e qualquer brasileiro deveria tentar visitar não somente os ribeirinhos, mas qualquer comunidade tradicional como eles. Ver de perto como é, como fazem, quais as preocupações, os quão distantes estão de nós nas preocupações e quão próximos estão nos desejos. Ir conhecer uma comunidade do Nordeste, que sobrevive em meio a seca, conhecer uma comunidade quilombola, uma aldeia indígena. Muitos dos brasileiros, senão a maioria, não faz ideia do quão urgente é a questão indígena no Brasil, as mídias de massas não nos atualizam sobre esta questão, sobre como são expulsos de suas terras ou explorados, ou coisa pior. Enfim, perceber que o Brasil, na realidade, são muitos.

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As casas podem ser flutuantes ou elevadas, as famosas palafitas. É uma forma de conviver com o sobe e desce das águas.

Vida Ribeirinha.

Os Ribeirinhos são pessoas que vivem em casas de palafitas acima do nível da agua em alguns metros, nas margens de igarapés, lagos, rios e igapós na região amazônica. Eles habitam nessas áreas alagadas ou semialagadas do estuário amazônico e dali retiram todo o seu sustento, por meio da pesca artesanal, extrativismo e micro agricultura, o roçado e a caça.

As pequenas comunidades de ribeirinhos se espalham pelas áreas de várzea do estuário amazônico. Essa população tem na sua origem além dos nativos, os migrantes do nordeste brasileiro que se mudaram para a região por conta dos famosos “ciclos da borracha” foram dois, iniciados no séc 19. Após a crise da borracha, esses trabalhadores ou como ficaram conhecidos, seringueiros, foram deixados à própria sorte e, como forma de sobreviver, se instalaram ao longo dos rios, alagados, várzeas etc, formando assim essas comunidades e dando origem a esse modo de vida tão peculiar.

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Muitos ribeirinhos são analfabetos e muitos não possuem existência civil, ou seja, não possuem certidão de nascimento.

O modo de vida dessas pessoas é totalmente ligado à natureza, eles vivem conforme a natureza segue seu curso. A sazonalidade dos ciclos de chuva e vazão é quem dita o ritmo da pesca, da caça e do plantio. Eles vivem um tempo próprio, particular, é o tempo da natureza. É notável perceber como essa relação homem e natureza, os tornou muito fortes. Eles se adaptaram totalmente para conseguir sobreviver, isso é visto nas casas, nos métodos para pesca e para caça.

As casas dos ribeirinhos muitas vezes são de palafitas ou flutuantes, para evitar que sejam alagadas nos períodos de cheia dos rios. Exceto pelas comunidades mais próximas às cidades mais estruturadas, a grande maioria das comunidades não tem qualquer tipo de acesso à coisas básicas como saneamento, energia elétrica e tratamento de água. Escolas, muitas vezes tem uma em uma comunidade maior e as crianças das comunidades menores vão até elas, muitas vezes navegando por horas em barcos ou canoas para chegar. Na questão da saúde, é o mesmo problema da educação, a diferença é que muitas vezes é um médico ou técnico de saúde treinado pelo município que vai até as comunidades.

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O tempo do ribeirinho é outro, é o tempo das águas.

Conforme citado pela professora Elenise Scherer, da UFAM, Universidade Federal do Amazonas, no trabalho apresentado no XII congresso Brasileiro de Sociologia, “os ribeirinhos não pertencem aos grupos humanos que vivem em situação de miserabilidade na Amazônia. Eles podem ser considerados pobres, mas não miseráveis. Até muito recentemente os ribeirinhos conseguiam viver do que se poderia denominar de uma prosperidade rústica (Biorn, 1999: p. 38). O excedente produzido é vendido a terceiros, ou melhor dizendo, entra no circuito mercantil.”

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Por se localizar próximo a Manaus, esta comunidade tem uma escola e atende esta e outras comunidades mais distantes.

Os ribeirinhos vivem em outro tempo, tem outra percepção dos dias, das noites, para eles é o que a natureza determinar. Num modo de produção essencialmente agrícola extrativista, familiar, em geral não tem comercialização do que se produz, porém quando ocorre, obedece ao tempo ditado pela vazão, pela enchente, pelo dia, pela noite, o sol, a lua, etc, somando-se a isso ainda, os impactos de suas lendas, seus mitos, de seres sobrenaturais, que eventualmente podem fazer uma pescaria ser perdida ou não.

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As comunidades próximas às cidades conseguem ter uma qualidade de vida melhor, esta, próxima de Manaus, recebeu energia elétrica devido a um projeto do governo federal, chamado luz para todos. Desenvolvimento da comunidade é visível, casas arrumadas, televisão e até restaurantes para receber turistas.

O conhecimento de como sobreviver nesses ambientes é passado verbalmente de geração para geração. Como muitos não sabem escrever, e muitos nem tem existência civil comprovada, ou seja, não possuem qualquer documento, todo o saber, toda a cultura e todos os modos são passados verbalmente. O Saber do ribeirinho se estende desde garantir seu alimento, sua casa, até sua saúde. Como o sistema de saúde do público é ausente, eles praticam a medicina da floresta.

“Ab’Saber observa que os ribeirinhos possuem um vasto conhecimento das várzeas, dos rios e floresta, coletando alimentos, fibras, tinturas, resinas, ervas medicinais, bem como materiais de construção (2002): p 9). Por esse profundo conhecimento da fantástica biodiversidade pelo ribeirinho e dos demais povos das florestas que são conhecidos como guardiões da natureza amazônica”. (Elenise Scherer, XII congresso Brasileiro de Sociologia p 7)

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Os rios são suas ruas e a floresta seus jardins.

“Em 2007 o decreto nº 6.040, reconheceu a existência dos povos e comunidades tradicionais, dentre os quais estão os ribeirinhos, instituindo uma política nacional voltada para as necessidades específicas desses povos, a Política Nacional de Desenvolvimento dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT)”.

FONTES CONSULTADAS:

BRASIL. Decreto 6.040 de 7 de fevereiro de 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6040.htm

SCHERER, Elenise. O desafio da inclusão na Amazônia Ocidental. Trilhas. Revista do Centro de Ciências Humanas e Educação, no 2, vol. 3, BELÉM: UNAMA,2002.

 FRAXE, Therezinha de Jesus Pinto; PEREIRA, Henrique dos Santos; WITKOSKI, Antônio Carlos. Comunidades ribeirinhas amazônicas: modos de vida e uso dos recursos naturais. Manaus: EDUA, 2007.

AB’SABER, Aziz. Bases para o estudo dos ecossistemas da Amazônia Brasileira. Revista Estudo Avançado n o 16(45), São Paulo: USP/Instituto Estudos Avançados, 2002.

Para saber mais:

RIBEIRINHOS da Amazônia. In: PORTAL da Amazônia. Disponível em:

 http://www.portalamazonia.com.br/secao/amazoniadeaz/

MORIM, Júlia. Ribeirinhos. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar

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