“Somos uma geração de homens criados por mulheres”.

A frase que compõe o título deste post foi dita por “Tyler Durden” no livro “Clube da Luta” de Chuck Palahniuk. Tem também um filme de 1999 baseado no livro onde, Tyler Durden é vivido por Brad Pitt e o narrador que é o personagem principal, é vivido por Edward Norton.

Brett Mckay, co-fundador do “The Art Of Manliness” – http://www.artofmanliness.com/ – nos diz que existem três instituições que historicamente tem trabalhado em transformar meninos em homens que são respectivamente família, educação e religião, porém, como ele mesmo observa, a presença masculina nestas mesmas instituições tem diminuído drasticamente nos dois últimos séculos.

A “Sagrada” Família.

Na família antes da revolução industrial, a presença dos pais entre outros elementos masculinos na casa, tios, avôs etc, era muito forte. O artesão trabalhava em casa, o agricultor vivia na terra em que cultivava e, os filhos obviamente, viviam essa experiência diária de ter o pai em casa o tempo todo.

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Os filhos seguiam os pais no trabalho diário seja nas  lavouras seja nas oficinas como artesãos.

 

Era comum a criança acompanhar o pai no seu oficio e este, sempre ensinava sua arte aos filhos, seja por exemplo, seja por disciplina os filhos sempre tinham a presença do pai ou do homem da casa. Com o advento da revolução industrial, essa presença constante fora transformada em ausência quase interminável. Naquela época, sem leis trabalhistas, não raro as jornadas de trabalho eram de 14 ou 16 horas diárias, todo dia, sendo dessa forma quebrada a relação pais e filhos constante, e o pai se ausentava por longos períodos.

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A mulher passa a ter a maior responsabilidade no desafio de transformar crianças em adultos respeitáveis.

 

A casa, falando de forma grosseira, passa a figurar como uma espécie de “esfera feminina” onde, cabia a mãe, transformar as crianças em adultos memoráveis, ou meninos em cavalheiros, como diz Mckay.

 

Esta é a primeira ruptura da presença masculina na família, ela perdura até a década de 50 mais ou menos. De fato, até hoje não é raro vermos propagandas e textos que apelam para o modelo familiar da década de 50 onde, o estereótipo é a mãe em casa, o pai no trabalho e os filhos na escola. Muitos, principalmente os mais velhos, desejam o retorno deste modelo de família, mesmo ignorando o fato da longa ausência paterna.

A segunda ruptura veio com as gerações dos anos 60 e 70, décadas de grandes turbulências culturais mundo afora, contracultura, movimentos jovens, hippies, feminismo fervendo nas veias, existencialismo em alta, Simone de Beauvoir, Sartre enfim, inevitavelmente quem estava no meio desta mudança era a família. No final dos anos 70, no Brasil, o divórcio que antes era pecaminoso, vergonhoso ou simplesmente ilegal, fora legalizado, conferindo à instituição familiar horizontes de possibilidades antes nunca imaginados. Nos anos 80, as taxas de divórcios atingiam índices exorbitantes e uma multidão de crianças de repente se viram crescendo sem a presença do pai, pois o judiciário, sabiamente e por questões certamente obvias, concede e prioriza a guarda às mães. Temos então uma nova mudança onde, antes os filhos viam o pai somente a noite, para um cenário onde os viam somente nos finais de semanas alternados e feriados. Claro, os pais que se importavam pois, tinham, e tem, aqueles que não fazem questão nenhuma da responsabilidade. O índice de famílias chefiadas por mulheres aumentou e muito desde os anos 70.

Educação.

Antes dos anos 1900, quando as ciências da psicologia e do comportamento ainda eram jovens e não tinha força para se expressarem, era comum o pensamento de que, as crianças eram consideradas “naturalmente” pecadoras e rebeldes e, com isso, precisavam de uma educação forte e disciplinadora. O oficio de professor neste período, era essencialmente exercido por homens e, como não era considerada uma profissão digna de se seguir carreira, era comum ser exercida por homens jovens que, estavam estudando algumas das ciências em voga, direito, filosofia, música e assim por diante.

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Gradativamente as mulheres foram assumindo as salas de aulas.

 

Após o iluminismo, o universo do conhecimento humano passou por mudanças drásticas, assim como o mundo em geral. Essas mudanças levaram a revisões de padrões de comportamentos e pensamentos, antes sempre reguladas pela igreja. Com esse balanço nas estruturas, as igrejas também revisam preceitos na sua forma de conduzir assuntos como por exemplo, a formação das crianças. Claro que isso tudo levou mais tempo que um parágrafo, mas o que sabemos é que essa mudança conceitual onde, o foco era o pecado da criança para o foco onde elas deveriam ser devidamente educadas dentro dos preceitos de moralidade, principalmente os da igreja, se deu nesse meio tempo. Essa tarefa parecia ser mais adequada às mulheres e assim, virando o século, no início de 1900, o índice de mulheres que lecionavam às nossas crianças eram de 80%.

Religião

No Brasil, em geral, as mulheres costumam ter mais afeição por frequentar uma igreja ou seguir uma religião do que os homens, isso quer dizer que, a terceira instituição que antes contribuía para transformar meninos em homens, essencialmente não é um reduto da masculinidade faltante. Nos Estados Unidos, essa ausência do homem nas igrejas como praticante gerou até movimentos para reinventar as dinâmicas dos cultos ou missas. Cultos inteiros com apelativos masculinos foram pensados para atrair seguidores deste gênero, sem sucesso, devo acrescentar, e isso perdura até hoje. Poucas religiões, as mais ortodoxas, consegue ter um certo equilíbrio no gênero dos seus seguidores.

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As mulheres sempre tiveram mais facilidade em frequentar e ou seguir uma religião, isso é possível verificar em qualquer lugar do mundo.

 

Somos uma geração de “crianças” criadas por mulheres.

A frase original fala de “homens” criados por mulheres. Refletindo um pouco, foi possível constatar que sim, de fato as mulheres nos últimos tempos, foram gradativamente se adaptando para compensar a crescente ausência dos pais na vida de seus filhos, absorvendo e assumindo para si a desafiadora arte de criar os filhos, sejam meninos ou meninas.

A conotação do título emprestado da frase de “Durden” é, na essência, machista ao extremo. Porém, dentro do contexto da estória do personagem, ele diz isso por ter mágoas do pai que o abandonou junto com a família aos 6 anos de idade, refletindo obviamente no adulto que se tornou.

Talvez este novo ” Zeitgeist” seja um dejavu pois, em tempos remotos, as tribos primitivas eram matriarcais onde, as mulheres detinham o domínio sobre o modo de vida de seus membros, decisões, ações etc, eram tomadas com o consentimento delas. Nossa sociedade machista, patriarcal, é uma invenção relativamente nova, alguns arriscam dizer que a ideia nasceu com o Cristianismo. super mulherAs mulheres estão no domínio de nossas vidas desde sempre, o que ocorreu é que perdemos o respeito e o senso de gratidão e passamos a tratá-las como propriedade em algum momento la atrás. O equivoco, era certo, e agora, ao que parece, a natureza “mãe” de todos, encontrou ao longo do tempo maneiras de corrigir essa nossa “molecagem”.

Uma pesquisa feita em uma empresa onde trabalhavam 120 pessoas, 75% eram mulheres, destas, mais da metade tinha filhos e as criavam sozinhas, a outra metade que eram casadas trabalhavam porque precisavam ajudar o marido. De fato elas são verdadeiras guerreiras, as mães/pais, que fazem jornada dupla, tripla para aquelas que tem filhos adolescente em fase de balada, quadrupla quando tem que cuidar do neto para a filha trabalhar.

O Homem não é Super

A psicologia entendeu, assim como nossas matriarcas do passado já sabiam, que os homens não são essenciais nesse processo de criação, por enquanto só se fazem uteis no processo de concepção, enfase no “por enquanto”, de acordo com as ciências atuais. A psicologia explica ainda, falando de forma simplificada, que “o Pai, no Real de sua encarnação, tem consistência para seus filhos como Imagem: imagem paterna…o Pai Real se refere ao homem / marido de uma mulher… o filho tem o Pai Imaginário, aquele que ele idealiza, que constrói em sua psique, e o Pai de fato, é o Pai como nome, como lei, o Pai designado pela palavra da Mãe. Dessa forma, quem determina o Pai é ninguém, senão a Mãe, e a paternidade é encarnada por um Pai Real e representado como Pai Imaginário”, diz ainda que, “a mulher se torna mãe por intermédio de processo biológico, enquanto o homem se torna pai por intermédio de um sistema simbólico, imposto pela sociedade – (A geração criada por mulheres: o pai e o masculino no Clube da Luta – Charles Elias Lang, 2010).

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A atual geração compreende bem a importância da família e os homens participam ativamente da vida de seus filhos. Na imagem acima podemos ver uma atitude que hoje é comum mas a 30 anos atrás era impensável. Na verdade, em famílias com crianças que tinha alguma deficiência ou doença grave, era possível verificar a ausência do pai que, simplesmente acreditava que a “obrigação” de cuidar da criança era da mãe.

 

Que geração somos de fato?

Particularmente prefiro este momento da nossa história, prefiro esta realidade. Será que estamos em um novo momento de ruptura para a instituição familiar? Hoje tenho amigos com filhos e vejo eles se dedicarem aos pequenos como jamais nossos pais e avôs o fizeram. Meu pai por exemplo, nunca trocou uma fralda e meu avô, não tenho lembranças de ter ido no colo dele. Em alguns casos é possível verificar o homem de hoje passando mais tempo com os filhos que a mãe pois ela trabalha em jornada diferente. A atual geração tem agido com a mente muito mais livre que as anteriores, eles sabem identificar o que é mais importante, e sabem que não é o dinheiro e é visível o quanto valorizam mais a família que o resto. O que dizer ainda das mães empreendedoras, essas sim, precisam de dias de 48 horas, as que estudam também.

Depois de umas 10 gerações de homens criados por mulheres, acredito que os homens atuais estão melhores enquanto “machos”, os mais jovens se dedicam mais às suas famílias e filhos que os seus pais ou seus avós. Obviamente que eles tem outros tipos de atitudes que causam estranhamento com, dar a impressão de não se importar muito com suas vidas no longo prazo, porém, como julgar, uma vez que, eles também tem que lidar com problemas que só existem neste tempo, no tempo deles, no tempo de sua geração, problemas relacionados à massificação da tecnologia por exemplo, a dinâmica do trabalho atual que era impensável há 20 anos atrás. Sem falar no passivo ambiental que estão herdando de nós e que, por si só, já é um problema que vai atravessar outras tantas gerações.

Ainda não tenho filhos e historicamente, pertenço à geração antes desta em que estamos, também criada por mulheres mas ainda com muito ranço machista porém, quando eu tiver meus filhos, eu quero agir e poder fazer parte desta nova geração de homens criados por mulheres e que dão muito valor a isso, quero me dedicar inteiramente a eles e tentar ser um bom pai. Se a mãe me permitir claro.

*Todas as imagens foram extraídas da internet.

 

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